Capitais do urbano – Workshop

Faz parte do senso comum da política brasileira a idéia de que empresas privadas influenciam processos políticos e, em especial, as políticas públicas da (e na) cidade. Por outro lado, a importância de diversos tipos de capitais para a produção da cidade já foi extensamente analisada pela literatura internacional, em especial desde o surgimento da sociologia urbana marxista francesa e da geografia crítica nos anos 1970. De forma similar, a literatura nacional já destacou de forma reiterada a relevância de diversos tipos de empresas privadas (nacionais e estrangeiras) na política nacional e, mais especificamente, na construção de nossas cidades. Entretanto, com talvez a exceção do capital imobiliário, cujo circuito de valorização está mapeado e conhecido desde há muito, a maior parte do que se discutiu e analisou tem caráter inespecífico, centrando-se na agenda clássica da sociologia urbana de compreender a relação entre os circuitos de valorização desses capitais e as dinâmicas mais gerais da acumulação, ou a natureza e o lugar da cidade capitalista na reprodução do capitalismo em várias esferas. Além disso, para uma parte substancial da produção (em especial a oriunda da ciência política), o espaço urbano não é tratado como uma dimensão relevante do tema. Por essa razão, o destaque a esses atores pela literatura clássica sobre a cidade, tanto da ciência política quanto dos estudos urbanos, pouco fez para acumular conhecimento sobre os diferentes tipos de capitais, suas formas particulares de operação e, em especial, sua relação com o Estado e suas políticas.

Essa situação tem tendido a mudar em período recente no Brasil, com o surgimento de uma série de trabalhos focados mais especificamente no entendimento dos agentes privados envolvidos com a produção da cidade. O objetivo desse workshop é refletir coletivamente sobre esse conhecimento acumulado, gerando um diálogo que possa apontar para uma compreensão mais precisa do papel dos capitais em nossas cidades, ao mesmo tempo em que ilumina as especificidades e particularidades de cada um deles. Antes de tudo, é preciso especificar o que está se considerando como capital do urbano. Nas economias de mercado, quase a totalidade dos capitais opera em cidades, seja sob o ponto de vista da localização de suas instalações, seja no que diz respeito aos fluxos de bens, materiais e imateriais, envolvidos em seus processos de produção. Apenas uma parte deles, entretanto, tem na produção da cidade o objeto de seus processos de valorização. Em alguns casos isso é mais óbvio, como nas empresas de transportes urbanos, de serviços urbanos, nas empresas construtoras e incorporadoras etc. Entretanto, os processos recentes de transformação do tecido produtivo tem tornado a fronteira dessa lista mais tênue, com a criação de holdings e/ou empresas financeiras de diversos tipos que estão associadas ou impactam direta ou indiretamente os processos de valorização das empresas envolvidas com a produção do espaço. Como essas empresas agem e interagem com o espaço urbano, e como são contratadas ou reguladas pelo Estado, interessa também compreender detalhadamente suas relações com o espaço e o Estado.

Assim, estamos interessados em entender o que se pode denominar de economia política de cada ou dos setores envolvidos na produção do espaço urbano – a construção de edificações, de infra-estruturas e de equipamentos, assim como a operação dos inúmeros serviços que caracterizam a cidade, sob regime de contratação, de concessão, de permissão ou de operação privada direta. Considerando o foco nas especificidades dos atores e processos, interessam em especial estudos empíricos de detalhe sobre:

  1. os atores presentes, suas relações e conflitos;
  2. seus circuitos de valorização, insumos, fases e fontes de lucratividade;
  3. as relações que estabelecem com a terra urbana e com o espaço da cidade;
  4. suas relações com o Estado e as políticas públicas;
  5. suas relações com as instituições políticas, assim como o seu lugar na política em geral.

O workshop inclui estudos sobre incorporação imobiliária, construtoras de habitações e de infra-estruturas, projetistas e gerenciadores de projetos, empresas concessionárias e contratadas para transportes urbanos sobre pneus e para limpeza urbana e para grandes projetos.